Advocacia no século XXI: gestão, tecnologia e inovação

Na advocacia tradicional, a estratégia competitiva se restringia à combinação de habilidades como conhecimento técnico, pesquisa e raciocínio.

No entanto, quem está minimamente atento já percebeu que é impossível não buscar um fator de diferenciação em um mercado com mais de um milhão de profissionais. E que opera em um contexto em que as ofertas de serviços jurídicos crescem e, em consequência, aumentam o nível de exigência dos clientes quanto à sua qualidade, agilidade e eficácia.

Esse início de século marcado por startups, aplicativos, smartphones, e tantos outros novos modelos de negócios e tecnologias, faz com que despontem outros elementos de diferenciação e vantagem competitiva. São cenários, portanto, que precisam ser dominados pelos advogados do futuro. E esses profissionais costumam estar voltados, basicamente, a três questões:

advocacia no século XXI

Gestão, tecnologia e inovação e o sucesso na advocacia

Esse conjunto de fatores – gestão, tecnologia e inovação – pode ser responsável por ajudar a sua advocacia a passar de um nível mediano, ou bom, para extraordinário. E afirmo isso sem qualquer exagero. Afinal, esses três elementos juntos possuem um enorme potencial de transformação, independente da atividade profissional que envolver.

Este post, então, trabalha com cada um desses três elementos. Além disso, também mostra o quanto eles podem representar um diferencial competitivo e impactar positivamente no sucesso do seu escritório.

Gestão jurídica: profissionalização da gestão dos escritórios de advocacia

A gestão jurídica pode ser entendida como um conjunto de estratégias, práticas e fluxos de um escritório de advocacia ou departamento jurídico. A ideia, com isso, é trabalhar para alcançar objetivos específicos, mediante um esforço organizado e estruturação de recursos.



É, então, a ferramenta que ajuda os escritórios a profissionalizar a sua gestão a partir da aplicação das práticas empresariais. Afinal, um escritório nada mais é do que uma empresa – e precisa, portanto, ser visto e tratado como tal.

Assim, no intuito de abranger o máximo possível de atividades e departamentos, a gestão jurídica organiza-se, didaticamente, em alguns pilares. São eles:

  • estratégico;
  • humano;
  • da produção;
  • da comunicação;
  • financeiro.

Vejamos, então, o que cada um deles significa.

O pilar estratégico da gestão

No campo estratégico é preciso pensar em direcionamentos e posicionamento correto da organização. Assim, traçar estratégias corretas ajuda a garantir uma gestão sustentável a longo prazo, possibilitando uma vida prolongada ao escritório.

Afinal, a visão macro é essencial para enxergar e definir os próximos passos e a direção do crescimento da organização.

O pilar humano

No pilar humano trabalha-se com o ativo mais importante dos escritórios de advocacia (ou de qualquer outra organização): as pessoas.

Portanto, a maneira como elas se comportam, se relacionam, como crescem, como são premiadas, como se sucedem e como trabalham, por exemplo, são bons indicativos a serem observados.

A própria cultura do escritório está diretamente ligada ao pilar humano. Afinal, as organizações só mudam quando se modificam o comportamento e a mentalidade das pessoas que a integram.

O pilar da produção

A produção diz respeito ao coração de qualquer organização jurídica. Tratam-se, portanto, dos seguintes elementos:

  • controle de prazos;
  • qualidade da informação;
  • procedimentos operacionais de segurança;
  • organograma funcional;
  • rotinas jurídicas;
  • fluxos de trabalho.

Tudo isso pode ser feito com a implantação de um bom software de gestão para escritórios de advocacia, por exemplo. Ou, então, com o auxílio do departamento de controladoria jurídica ou do chamado controller.

O pilar da comunicação

Já o pilar da comunicação abriga um dos maiores desafios dos escritórios na atualidade: o marketing jurídico.

O marketing jurídico tem o poder real de influenciar positiva ou negativamente a percepção das pessoas (clientes ou potenciais clientes) sobre o peso intelectual dos profissionais que compõem a banca.

Assim, um bom plano de marketing jurídico é capaz, ainda, de sustentar a marca jurídica a curto, médio e longo prazo. Essencial ressaltar que, para um plano bem desenhado, é preciso:

  • identificar as necessidades do cliente;
  • criar a solução;
  • comunicar essa solução ao mercado;
  • entregar valor ao cliente.

E tudo isso, claro, deve ser feito sempre com respeito aos princípios e normas da ética profissional do advogado.

O pilar financeiro

O advogado não precisa ter um conhecimento profundo de finanças. Afinal, ele pode contratar um especialista para cuidar disso e também para aproveitar melhor o módulo financeiro dos softwares de gestão, que estão cada vez mais completos.

Todavia, é preciso sim que o advogado possuo um conhecimento mínimo da parte financeira. É importante, por exemplo, que ele saiba identificar a importância de separar o dinheiro do escritório do dinheiro dos sócios, ter as despesas fixas bem mapeadas e aprender a precificar honorários.

2. Novas tecnologias: automação, inteligência artificial e lawtechs

Vivemos imersos em um mundo altamente tecnológico, mas nem sempre paramos para pensar os impactos que essa realidade têm sobre o futuro da advocacia. E muitas das novidades que surgiram nos últimos anos já provocaram profundas transformações no cotidiano dos escritórios de advocacia.

Tecnologia pode ser definida como o uso de técnicas e de conhecimento adquirido para facilitar ou aperfeiçoar o trabalho ou criar uma solução. Tudo que é capaz de transformar o ambiente a nosso favor, portanto, pode ser considerado um movimento tecnológico.

Sabemos, contudo, que são as novas tecnologias que mais têm impactado a advocacia. No caso:

  • automação;
  • inteligência artificial;
  • big data;
  • jurimetria.

Em geral, tudo isso é desenvolvido e lançado no mercado pelas chamadas lawtechs, empresas de tecnologia voltadas exclusivamente para solucionar problemas do ecossistema jurídico. A consequência disso é uma advocacia completamente transformada.

No entanto, essa situação tem outro lado: muitos profissionais questionam, por exemplo, se seria o fim da advocacia. Uma pesquisa da Universidade de Oxford revela que 47% dos empregos nos Estados Unidos estão em risco de automação nos próximos 20 anos. E, ente eles, estariam os advogados.

O Brasil, por sua vez, já conta com mais de 150 lawtechs, segundo a Associação Brasileira de Lawtechs e Legaltechs (AB2L). Elas operam nas mais diferentes áreas e as soluções oferecidas definitivamente contribuem para uma estrutura humana mais enxuta nos escritórios.

Cabe ao advogado do século XXI, portanto, aprender a dominar essas novas tecnologias e utilizá-las a seu favor no exercício profissional, potencializando seu trabalho e evitando atividades repetitivas.

Além disso, é necessário resgatar as habilidades humanas e trabalhar no desenvolvimento pessoal contínuo para se dar bem nesse novo mercado.

3. Inovação: a alma dos novos negócios

Já dizia Eric Ries, o criador do estilo startup, em seu livro The startup way (2017):

Inovação é o processo de criação e implementação de novas ideias, com o intuito de gerar valor para uma organização.

O fato de um escritório de advocacia não ser a nova Uber ou Netflix, não significa que o profissional não deve se reinventar e procurar modelos de negócios inovadores. Manter um departamento dentro do escritório de advocacia responsável por observar as tendências do mercado e propor novas práticas é essencial para garantir frescor e vitalidade à organização. Especialmente em uma sociedade de natureza volúvel e dinâmica que se modifica em uma velocidade espantosa.

Nesse contexto, tudo é complexo e incerto. E nenhuma empresa pode ficar estagnada, achando que seu modelo de negócio não está sujeito a essa volatilidade.

Os escritórios dotados de departamento de inovação ou heads de inovação, por exemplo, são capazes de desenvolver novos projetos que podem cocriar o futuro e antecipar tendências. Isso vai muito além de garantir sua sobrevivência, portanto.

E não é só. Muitos escritórios também já começaram a se comportar como startups, enxugando a estrutura, pensando no futuro e olhando mais para o cliente . E, por meio disso, proporciona uma verdadeira experiência de compra dos serviços jurídicos e consequente fidelização.

Conclusão

Este é o momento de abandonar o desnecessário tradicionalismo jurídico e, portanto, mergulhar de vez na advocacia do século XXI. Uma advocacia de mais resultados e menos glamour. Mais acessível e eficiente e menos distante da sociedade. Mais tecnológica e menos repetitiva, por exemplo.

É uma área incerta, é claro. No entanto, inovadora e disruptiva ao mesmo tempo. Portanto, uma gestão eficiente, um bom suporte tecnológico e uma grande dose de coragem para fazer diferente são as fórmulas do sucesso nessa nova advocacia.

Camilla Pinheiro é advogada. Coordenadora do Núcleo de Inovação e Gestão Jurídica do Instituto de Estudos Avançados em Direito (IEAD). Possui MBA em Planejamento e Gestão de Escritórios de Advocacia e é membro da Association of Legal Administrators (ALA). Também integra a Comissão Especial de Inovação e Gestão da OAB/GO.

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