Comunicação não violenta: como fazer uso na advocacia

Comunicação não violenta é “um modo de se comportar e de se relacionar pelo qual as pessoas se voltam para o que observam, sentem, precisam e assim conseguem pedir especificamente, sem precisar de apontar o erro na conduta do outro”. E pode, dessa forma, ser empregada na advocacia.

Como utilizar a comunicação não violenta na advocacia

Com o avanço da tecnologia e o advento das redes sociais, a comunicação ficou muito fácil, de tal forma que, muitas vezes, se perde em sua essência. Falamos muito, ouvimos pouco, e entendemos principalmente o que nos convém. E em muitos momentos, a forma com que nos expressamos pode soar equivocada ou ser agressiva. É nesse sentido, então, que a comunicação não violenta pode ser utilizada em benefício das partes.

Comunicação é originária do latim communicatio, ou seja, “tornar comum”. Envolve, dessa forma:

  1. um emissor (quem envia a mensagem);
  2. uma mensagem (informação); e
  3. um receptor (quem recebe a mensagem).

Para que esse processo seja bem sucedido, é necessário que o que eu quero dizer seja entendido pela pessoa que recebeu a informação. E, é nessa parte que começa o que hoje chamamos desinformação, ou des (comunicação), quando o receptor entende, não o que foi transmitido, mas o que lhe é interessante.

Diferentes tipos de comunicação

Nesse sentido, de forma ampla, a comunicação se apresenta de três formas:

  1. verbal (escritas ou faladas);
  2. não verbal (que não necessitam ser ditas ou escritas); e
  3. mediadas (realizadas por meio de um recurso que liga transmissor e receptador).

Comunicação Verbal

A comunicação verbal é composta pela palavra e apresenta-se sob a forma de escrita ou fala. Para que a mensagem, quer seja escrita ou falada, seja eficaz é necessário, então, que o receptor compreenda o que ouve ou o que lê. E para isso, portanto, é necessário que esteja no mesmo patamar de conhecimento que o emissor.

Comunicação Escrita

É o tipo de comunicação em que a mensagem e informação que se pretende transmitir é emitida sob diversas formas, cartas, emails, livros, jornais, etc.



Comunicação Oral

A mensagem e informação que se pretende transmitir é falada como, por exemplo, em televisão ou rádio, ou no contato pessoal nas relações interpessoais.

Comunicação Não-Verbal

A comunicação não-verbal é o tipo de comunicação em que se usam sinais como olhares, gestos, postura e mímica. Só para ilustrar, aqui vale lembrar o educador e psicólogo francês Pierre Weil e sua obra clássica, “O Corpo Fala”.

Vale aqui ressaltar que uma boa comunicação não é apenas para nossa vida prático-profissional, como operadores do direito, mas nos acompanha no dia a dia, desde a comunicação com a família e em todas as nossas esferas de convívio social.

Mudanças e evolução social das feições comunicativas modernas: o advento da comunicação não violenta

Dessa maneira, dado esse panorama sobre a evolução social e as feições comunicativas modernas, muitos estudiosos e pesquisadores sociais, observaram que as relações sociais, começaram a apresentar ruídos e distorções, principalmente no que diz respeito à arte de se comunicar. Muitos passaram a utilizar a linguagem como arma, e não como remédio, já que se utiliza de “palavras afiadas” ao dialogar com seu próximo.

Pois bem, ao observar todas essas questões sociais, o psicólogo norte americano Marshall Rosenberg cunhou a expressão: “Teoria do Conflito e comunicação não-violenta”. Nas palavras de Rosenberg, CNV (comunicação não-violenta) é: “um modo de se comportar e de se relacionar pelo qual as pessoas se voltam para o que observam, sentem, precisam e assim conseguem pedir especificamente, sem precisar de apontar o erro na conduta do outro”.

O que é comunicação não violenta

A comunicação não violenta vai além de uma técnica profissional, uma ferramenta de trabalho ou até mesmo uma área de estudo do comportamento humano. É um estilo de vida, é entender e se colocar no lugar do outro, tratar o seu semelhante como você gostaria de ser tratado, é pensar na dor, no sentimento do próximo. Ou seja, a CNV inaugura uma era de pacificação social.

Estudar e viver o estilo de vida de comunicação não violenta, nada mais é do que reviver os primórdios de nossa sociedade, onde existiam menos “mensagem instantânea”, e mais contato, existiam menos “filtros”, e mais verdade. A CNV de Marshall Rosenberg, é na verdade o grito de toda uma geração, que reconhece a necessidade da empatia, da retomada de valores, que busca (re)inventar o diálogo e a essência da arte de uma boa comunicação, saber onde e como se expressar, saber que tão importante quanto se expressar, é como fazê-lo.

Nas palavras de Rosenberg: “Por mais impressionados que possamos estar com os conceitos de comunicação não violenta, é somente através da prática e da aplicação diária que as nossas vidas podem ser transformadas.” 

Importância de saber transmitir a mensagem através de uma boa comunicação

Gostaria de transcrever aqui, só para ilustrar o exposto acima, uma fábula de autor desconhecido, que bem retrata a importância de saber comunicar, transmitir sua mensagem:

Certa vez, um sultão sonhou que lhe tinham caído todos os dentes. Logo que acordou, mandou chamar um adivinho para que interpretasse o seu sonho.

Exclamou o adivinho:

 – Que desgraça, senhor! Cada dente caído representa a perda de um parente de vossa majestade.

 – Mas que insolente! Como te atreves a dizer-me semelhante coisa? Fora daqui! – gritou o sultão enfurecido.

 Chamou os guardas e ordenou que lhe dessem 100 açoites. Mandou que trouxessem outro adivinho para interpretar o sonho. Este, após ouvir o sultão com atenção, disse-lhe:

 – Excelso senhor! Grande felicidade vos está reservada. O sonho significa que sobrevivereis a todos os vossos parentes.

 O rosto do sultão iluminou-se num sorriso e ele mandou dar 100 moedas de ouro ao segundo adivinho. Quando este saía do palácio, um dos cortesãos lhe disse admirado:

 – Não é possível! A interpretação que fez foi a mesma que o seu colega tinha feito. Não entendo porque ao primeiro ele pagou com 100 açoites e a si com 100 moedas de ouro…

Respondeu o adivinho:

– Lembre-se, meu amigo, que tudo depende da maneira como se diz. Um dos grandes desafios da humanidade é aprender a arte de comunicar. Da comunicação depende, muitas vezes, a felicidade ou a desgraça, a paz ou a guerra. Que a verdade deve ser dita em qualquer situação, não resta dúvida. Porém, a forma com que ela é exposta é que tem provocado, em alguns casos, grandes problemas.

Como colocar em prática a comunicação não violenta?

Mas com tudo isso, você deve estar se perguntando qual a maneira de colocar em prática a comunicação não violenta e como vivenciar essa mudança de comportamento no dia a dia? Então, aqui vão os quatro elementos básicos da CNV, segundo Marshall Rosenberg:

 1. Observar sem julgar

Observar é olhar para a situação de uma forma neutra, com atenção, interesse, sem fazer julgamentos. Antes de tudo, é guardar sua opinião para si ou para expressá-la de modo específico no momento e contexto apropriados.

2. Identificar sentimentos

Identificar e dar nomes às nossas emoções e às emoções do outro, distinguir sentimentos dos pensamentos, é muito importante para a comunicação não violenta. É fundamental, dessa forma, aprender a identificar nossos sentimentos com a finalidade de saber como lidar com eles.

 “Nosso repertório de palavras para rotular os outros costuma ser maior do que o vocabulário para descrever claramente nossos estados emocionais”, como disse Marshall Rosenberg.

 3. Assumir a responsabilidade pelos sentimentos

É saber reconhecer a necessidade que cada pessoa tem e que está escondida atrás de cada sentimento, de cada fala, de cada atitude tomada, a fim de que se construa uma comunicação mais equilibrada e empática.

4. Pedido

Quando conseguimos, enfim, expressar aquilo que observamos, sentimos e necessitamos, fazemos então um pedido de forma clara e objetiva com o desejo de satisfazer nossas necessidades.

 O grande engenheiro Emilio Odebrecht, que brilhantemente já disse: comunicação é mais que informação; informação subsidia, atualiza, nivela conhecimento. Portanto, “a comunicação sela pactos e educa”. Em conclusão, faço minhas as palavras de Odebrechet, acrescentado que a busca pela comunicação empática e não violenta, vai além de um estilo de vida para fins imediatos, mas é o caminho na promoção do bem bem-estar público social e o avanço da humanidade.

Referências:

  1. ROSENBERG, Marshall B. Comunicação não-violenta: Técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais. São Paulo: Ágora, 2006.
  2. LOTH, Andreia. Comunicação não violenta e os 4 passos fundamentais .2018. http://www.institutodialogo.com.br/comunicacao-nao-violenta-e-os-4-passos-fundamentais/, acesso em:10/08/2019.

Escrito por:

Gabriel Veiga Rabelo, Bacharel em Direito, Mediador e Conciliador pelo TJ/GO. Associado ao Instituto de Estudos Avançados em Direito e vice coordenador do Núcleo de Mediação e Conciliação. Pós graduando em Direito Civil e Processo Civil pelo PROORDEM. E-mail para contato é gvrabelo@hotmail.com.

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