Mediação e constelação familiar sistêmica na resolução de conflitos

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Constelação familiar sistêmica e mediação, um novo olhar sobre a resolução dos conflitos

O processo de inserção da mediação no ordenamento jurídico, através de medidas formais, inicia-se já em 2010. Consoante resta sabido, no ano de 2010, o Conselho Nacional de Justiça criou a Resolução CNJ n. 125/2010. A fim de estabelecer um tratamento adequado para resolução de conflitos de forma não litigiosa, ela instituiu, assim, a Política Pública Nacional no âmbito do Judiciário.

Passados cinco anos, a solução consensual de conflitos foi, então, incluída no Novo CPC (Lei 13.105/2015). Desse modo, a conciliação e a mediação tornaram-se etapas processuais obrigatórias. No mesmo ano, por fim, foi aprovada a Lei nº 13.140/2015, chamada Lei da Mediação. Disciplinava, dessa forma, a técnica como forma de resolução de conflitos.

O que é mediação

Neste sentido, considera-se que a mediação é uma forma de solução de conflitos interpessoais. Nela, então, uma terceira pessoa, neutra e imparcial, facilita o diálogo entre as partes interessadas. E desse modo, elas mesmas podem construir, com autonomia e solidariedade, a melhor solução para a questão apresentada.

Mediação e constelação familiar

Ressalta-se que o objetivo principal da mediação é o restabelecimento do diálogo entre as partes, em razão de se tratar relação continuada envolvendo, na maioria das vezes a família, vizinhança, dentre outras. E, consequentemente, proporcionar uma transformação no padrão de comunicação entre as mesmas.

Apesar dos resultados positivos na mediação judicial familiar, o judiciário, na tentativa de propagar cada vez mais os métodos alternativos de solução de conflitos criou, no ano de 2012, o programa “Constelações na Justiça”.

Constelação sistêmica

Elaborado pelo juiz Dr. Sami Storch, da 2ª Vara de Família de Itabuna/BA, premiado pelo CNJ, o programa tinha, assim, o intuito de promover constelações sistêmicas prévias, antes mesmo da audiência de conciliação e mediação.

Desse modo, apresentava-se como uma técnica terapêutica onde as partes, diante de um terceiro facilitador (constelador), possibilitam acessar e visualizar seus sistemas inconscientes de ação e automatismo que por ressonância levam e mantêm conflitos.

Utilizando esta ferramenta, portanto, é possível identificar o verdadeiro cerne da questão (problema). E uma vez revelado, as próprias partes chegam ao entendimento quase que definitivo. Dessa forma, possibilita-se a entabulação de acordo, selando as contendas, o que, por sua vez, desafoga o judiciário.

Nesta esteira, a visão sistêmica do Direito agrega o Direito já existente e amplia sua função. Dessa maneira, torna-se imprescindível num tempo em que as pessoas estão percebendo que os problemas são resolvidos a partir de si próprias. E traz, assim, a solução mais desejada e adequada por elas mesmas.

Constelação familiar sistêmica

Importante ressaltar que a Constelação Familiar Sistêmica, diferentemente da mediação, é um método terapêutico utilizado para tratar questões físicas e mentais, a partir da revelação das dinâmicas ocultas de uma família.

O método foi desenvolvido pelo psicoterapeuta alemão Bert Hellinger, nascido na Alemanha em 1925. Trabalhando como missionário na África de Sul, entre os zulus, durante 16 (dezesseis) anos, atuando neste período como padre, desde os 20 anos de idade, e atuando como diretor de várias escolas, dentre elas, o Francis College, em Marianhill, então, ele desenvou sua técnica.

Bert Hellinger, pensador e pesquisador, escreveu vários livros sobre Constelação Familiar. E alega que o método é profundamente empírico . Além disso, afirma que possibilita descobrir as inúmeras leis que governam nossa vida e nosso destino.

Ao abordar essas leis ele recomenda não sermos categóricos. Dá-nos, assim, a liberdade de as colocarmos à prova, validando, adaptando e até mesmo revogando a lei através do método que ele chama de “fenomenológico”. Por meio dele, então, é possível identificar acontecimentos que, mesmo desconhecidos, podem trazer problemas para a vida de uma pessoa.

O que a constelação revela

O que se revela através da Constelação é que, por exemplo, “quando uma criança se sente mal amada, é provável que sua mãe se ache envolvida ou comprometida numa situação de bloqueio que a impede de dar livre curso a seu desejo de ser mãe amorosa”. O que a constelação familiar revela, portanto, é a verdade fundamental que mantém a situação dolorosa.



A constelação familiar atua de forma energética e visa solucionar um conflito por vez. Suas dinâmicas consistem em montar o sistema familiar e entrar em contato com o campo morfogenético do sistema familiar do paciente. Esse contato possibilita, assim, identificar os motivos que possam ter ocasionado um desequilíbrio nesse sistema.

Leis do relacionamento humano

Bert Hellinger nos fala que há, além do inconsciente individual e do inconsciente coletivo, um “inconsciente familiar” que atua em cada membro da família. E, consequentemente, possuem impactos nas formas de resolução de conflitos além da mediação. Para ele, existem 3 leis do relacionamento humano, leis básicas que atuam ao mesmo tempo: pertencimento, ordem e equilíbrio.

Vejamos, em suma, cada uma delas:

  1. Pertencimento: “Pertencer à nossa família é a nossa necessidade básica, é o nosso desejo mais profundo manter esse vínculo. A necessidade de pertencer à família vai além mesmo da nossa necessidade de sobrevivência. Isso significa que estamos dispostos a sacrificar nossa própria vida pela necessidade de pertencimento” (HELLINGER, 2017, p. 17).
  2. Lei da ordem: “O ser é estruturado pelo tempo. O ser é definido pelo tempo e através dele, recebe seu posicionamento. Quem entrou primeiro em um sistema tem precedência sobre quem entrou depois. Sempre que acontece um desenvolvimento trágico em uma família, uma pessoa violou a hierarquia do tempo” (HELLINGER, 2003, p. 37).
  3. Lei do equilíbrio: “O que dá e o que recebe conhecem a paz se o dar e o receber forem equivalentes. Nós nos sentimos credores quando damos algo a alguém e devedores quando recebemos. O equilíbrio entre crédito e débito é fundamental nos relacionamentos” (HELLINGER, 2012, s/p).

Ordens do Amor

O resultado da observação e dos experimentos com estas leis se transformou, assim, em um trabalho simples, direto e profundo que o próprio Bert gosta de chamar de “Ordens do Amor”. Segundo ele, onde houver pessoas convivendo, estas 3 leis estarão atuando.

Indicado ao Prêmio Nobel da Paz em 2011, Hellinger tem hoje 90 anos e continua seu trabalho com as Constelações em todo o mundo. Suas obras já foram trazidas para mais de 20 idiomas. Segundo ele, quando se age de acordo com as leis, a vida flui e nossos objetivos se desenvolvem. Quando as transgredimos, a consequência é perda da saúde, da vitalidade, da realização e dos bons relacionamentos, assim como o fracasso nos objetivos de vida.

Terapia da constelação

Durante uma sessão de constelação, o objetivo é identificar quais leis podemos inconscientemente estar transgredindo e nos recolocar na vida de uma forma que possamos respeitá-las.

Esta terapia impressiona por sua ação no nível anímico. Ou seja, na cura da alma. Por sua dinâmica extraordinária, em que agentes “representam” personagens familiares, “representam” profissões, “representam” empresas, “representam” imóveis, “representam” sintomas e doenças, e assim por diante.

Através de um desenho vivo e sensorial de sua Constelação pode-se, passo a passo, olhar os emaranhamentos inconscientes e chegar-se, assim, quando é possível para o cliente dar este novo passo, a uma solução nova e libertadora.

De acordo com a Associação Brasileira de Constelações Sistêmicas, a terapia de Constelação Familiar não tem o objetivo de substituir outras terapias ou se colocar acima da medicina convencional, mas sim servir de complemento e possibilitar que o indivíduo tenha conhecimento de seu sistema familiar. E, claro, auxiliar na resolução de conflitos, junto aos processos de mediação e conciliação.

Constelação familiar no Direito brasileiro

Em março deste ano o Ministério da Saúde incluiu a Constelação Familiar no rol de procedimentos disponíveis no Sistema Único de Saúde. A terapia foi incluída, então, no escopo das Práticas Integrativas e Complementares (PICs). E enquandra-se como uma forma de terapia complementar que pode contribuir para a saúde e bem-estar da população.

Atualmente a técnica, além da mediação e da conciliação, vem sendo utilizada pelos Estados de Goiás, São Paulo, Rondônia, Bahia, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará, Paraná, Rio Grande do Sul, Alagoas e Amapá e o Distrito Federal, no intento de ajudar a solucionar conflitos na Justiça brasileira.

No Estado de Goiás, o Projeto Mediação Familiar, do 3º Centro Judiciário de Soluções de Conflitos e Cidadania da comarca de Goiânia, conferiu ao Tribunal de Justiça de Goiás (TJGO) o primeiro lugar no V Prêmio Conciliar é Legal, promovido pelo CNJ. De acordo com o juiz Paulo César Alves das Neves, coordenador do Núcleo Permanente de Métodos Consensuais de Solução de Conflitos do Tribunal e idealizador do projeto, o índice de solução de conflitos com auxílio da técnica é de aproximadamente 94% das demandas.

O que se percebe, desse modo, é um comportamento cada vez mais sincronizado do judiciário e de seus colaboradores em implementar as diversas formas pacíficas de soluções de controvérsias, proporcionando aos cidadãos uma maior autonomia sobre a sua própria vida, gerando satisfação e eficácia na resolução, muitas vezes definitivas de suas controvérsias.

  • HELLINGER, Bert. A cura. Belo Horizonte: Atman, 2017.
  • HELLINGER, Bert. Ordens do amor. São Paulo: Cultrix, 2003.
  • HELLINGER, Bert. Simetria oculta do amor. São Paulo: Cultrix, 2012.

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