Mercado jurídico, crise na advocacia e reflexos para os advogados

Reinvente-se com a crise no mercado jurídico

Quando falamos em mercado jurídico na atualidade, no ramo da advocacia, a sensação que pode surgir num primeiro momento é de ansiedade. Isto porque assistimos, diuturnamente, mudanças muito significativas nas relações sociais, na legislação brasileira e, por conseguinte, nas relações jurídicas de um modo geral.

Basta lembrarmos da recente Reforma Trabalhista e da iminente Reforma da Previdência, em ampla discussão no país. Sentimos logo uma instabilidade, uma insegurança para a atuação na advocacia. Parece, de fato, um cenário muitas vezes desolador.

O que era, antes, estável e previsível torna-se, agora totalmente inseguro e imprevisível. E nos coloca, desse modo, numa posição desconfortável e inquietante de descrença. Quem ainda não sentiu isso que atire a primeira pedra!!!

Sim, nosso país e nossa sociedade passa por momentos turbulentos. Valores são revistos e ressignificados. E demandas que antes eram comuns, agora são escarças. Enquanto novas demandas surgem, muitas daquelas com as quais estamos acostumados a trabalhar param de surgir em nossos escritórios.

mercado jurídico

Será, contudo, que todas essas mudanças são negativas? Talvez o segredo esteja em reavaliar a forma como lidamos com elas e a forma como encaramos a própria advocacia.

Como se adaptar às mudanças no mercado jurídico

Como lidar, portanto, com tudo isso? Como lidar com uma profissão que vive da defesa de direitos e promoção de justiça, se nosso Poder Judiciário, por vezes, mostra-se incapaz de solucionar de forma pacífica e satisfatória os conflitos? Como vamos passar para nosso cliente a segurança, ainda que relativa, de um resultado processual, de uma demanda, se cada vez mais sentimos insegurança. E por que não dizer despreparo mesmo dos profissionais da área jurídica? Ou seja, como mostrar uma confiança que não podemos ter por conta da realidade do Direito brasileiro?



Bom, tudo tem um motivo e uma razão de ser. E poder que a razão do problema não esteja na superfície do mercado jurídico, mas nas raízes do Direito e da cultura jurídica brasileira.

Saia da zona de conforto e repense a advocacia

Não é simples, mas a crise também nos traz grandes reflexões. E nos tira, assim, da zona de conforto na advocacia com a qual estávamos acostumados. Como já abordei outra vez, a busca pela estabilidade é algo comum e não é necessariamente ruim. É o que nos dá segurança. No entanto, a zono de conforto pode nos condicionar. E é possível ter estabilidade, mas também investir em ações que nos impulsionem.

Ninguém quer perder o lugar no mercado jurídico, onde atua há tantos anos, ou perder um cliente. Ninguém quer mudar de área jurídica e de repente ver seus processos terem resultados negativos, embora seja essa um pouco da essência da profissão: ganhar e perder.

O fato é que a instabilidade das relações sociais afeta diretamente as relações jurídicas, mas tudo vem para ser repensado e ressignificado. Nós, advogados e advogadas, realmente precisamos olhar para esse momento como uma oportunidade de fazer uma advocacia diferente.

Será que a nossa profissão depende exclusivamente da solução do Poder Judiciário instituído? Ou podemos reinventar a profissão para sermos verdadeiros condutores de novos modelos de solução de conflitos extrajudiciais?

Inspire-se em modelos jurídicos diferentes

Basta olharmos os seriados da advocacia norte americana e verificamos o quanto os advogados lá são negociadores e gestores de conflitos. Evidente que há grandes diferenças na formação dos profissionais e na função da advocacia norte americana. Os sistemas jurídicos, afinal, são de origem e modelo distintos.

Podemos, contudo, aproveitar, sim, um pouco do que vemos da advocacia e do mercado jurídico de lá. Ver e experimentar o diferente pode fornecer insights que não teríamos do nosso lugar de conforto. E podemos, então, aprender com o perfil que eles constroem de consultores e gestores de situações de conflitos, muitas vezes evitando a judicialização de casos que podem ser resolvidos pelas partes, a partir da construção de uma didática de autonomia da vontade das partes.

Nem tudo podemos copiar, porquanto temos aspectos culturais, sociais e econômicos muitos distintos. No entanto, indubitavelmente, precisamos alcançar novos patamares da atuação jurídica do advogado, como um especialista em crises, em soluções inovadoras, em gestores de conflitos jurídicos, em bons negociadores de direitos, sem perder de vista a grande função democrática e social que recomenda a Constituição Federal de 1988.

Torne-se um gestor de conflitos

Não imagine que estou fazendo apologia à autotutela ou à criação de novas formas de arbitragem ou qualquer outro modelo pronto que seja. Não! O que te convido a pensar é sobre a real necessidade desse modelo de justiça que temos hoje no qual aguardamos unicamente a solução vinda do judiciário e perdemos a capacidade de nos CAPACITAR para sermos gestores de conflitos mesmo.

É da essência da profissão do advogado realizar a justiça, mas penso que ficamos dependentes de um único modelo. Ficamos atrelados, dessa maneira, ao ingresso com a ação no Judiciário ou a produção da defesa. Já pensou em quantos processos teriam sido evitados e trariam mais satisfação se fossem resolvidos de outra forma? A mediação e a conciliação, por exemplo, estão á para isso. Mas também podemos pensar mais na advocacia consultiva e preventiva.

Nossos clientes também estão inseridos na cultura do litígio. E chegam, então, a nós apegados à necessidade de iniciar uma lide cuja solução está além do poder decisório do judiciário e poderia trazer mais satisfação a eles se fossem solucionadas de outras formas.

Contribuímos, desse maneira, para aprisionamento de nossos clientes e de nosso tempo útil de trabalho anos a fio em processos de litígios intermináveis, cujo Poder Instituído, muitas vezes não tem estrutura para lidar, mesmo diante de tantos esforços, metas e conquistas. Mas e se pudesse ser diferente? Cabe, portanto, aos advogados e advogadas trabalhar por um modelo diferente. O mercado jurídico não mudará enquanto os advogados e advogada não mudarem também.

Pense no mercado jurídico de forma diferente

Dessa forma, eu os convido a pensar na crise de forma diferente. Ainda que o momento balance as nossas estruturas e convicções mais intimas, precisamos olhar para o mercado jurídico e para as necessidades sociais atuais e iminentes e pensar diferente.

O que podemos fazer de diferente com nosso talento? Como a advocacia pode ser reinventada num país em franca transição política cultural, social e econômica?

Nossa profissão não vai acabar. Modelos arcaicos de pensar o Direito e atuar com justiça é que encerram seus ciclos. Findam, quando não cumprirem mais o ideal de justiça e composição de conflitos tão esperados pela sociedade. Nesse diapasão, natural que fiquemos ansiosos e aturdidos. Contudo, precisamos repensar nossos talentos

Precisamos buscar nossa essência dentro da advocacia. E encontrar, assim, novas formas de administrar e operar com a justiça, pautando-se por um comportamento ético e transparente e educando nosso cliente a entender que podemos ir muito além de conflitos judicializados intermináveis que não nos remuneram e não atendam aos interesses das partes litigantes.

Somos gestores de interesses e facilitadores de direitos. E precisamos inaugurar uma nova era de atuação. Precisamos alçar respeito, resgatar nossa dignidade, a importância da advocacia para a democracia e para a construção de um espaço civil e de autonomia da vontade dirigida a autocomposição de litígios de forma efetiva e segura.

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