Mulher advogada e mãe: os desafios da maternidade na advocacia

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Roda de conversa sobre ser mulher advogada e vivenciar a maternidade na advocacia

No dia 12 de maio de 2019 mais um Dia das Mães é comemorado no Brasil. No entanto, o que é ser mãe? De diferentes formas, a maternidade vem atrelada a concepções pré-constituídas que remontam a uma ideia de controle sobre o corpo feminino. E esquece-se, muitas vezes, desse modo, que, por trás da função materna, existem indivíduos, mulheres, capazes de decidir sobre si e que não são apenas mães, apesar das mudanças que a maternidade traz em suas vidas. Ser mãe, portanto, é, acima de tudo, isto: um momento de modificações. E ninguém melhor do que uma mãe para falar sobre isso. Por essa razão, o SAJ ADV recebeu três profissionais para falar sobre a experiência da mulher advogada e mãe.

A data comemorativa varia conforme os países e, apesar do apelo comercial que ganha na contemporaneidade, é comemorada desde a Antiguidade. Contudo, muito se modificou desde então, e não apenas na forma de comemoração. As próprias relações sociais se modificaram, implicando novos contextos na maternidade. Se há alguns anos, a maternidade era vista como a função primordial da mulher, hoje se encontra, em alguns contextos sociais, a aceitação de que a mulher pode exercer funções paralelas à maternidade.

A mulher, desse modo, pode trabalhar e ser mãe, por exemplo. Simultaneamente, todavia, vem a questão de como fazer isso quando todo um sistema tenta dizer a essas diferentes mulheres como elas devem viver. Confira, então, o que as advogadas Alinny Burich, Carolina Fraga e Emili Loch compartilham sobre a maternidade na advocacia.

mulher advogada e os desafios da maternidade na advocacia

A decisão sobre ser mulher advogada e mãe

Alinny Burich, mãe do Davi (12 anos) e da Maria Clara (7 anos), é advogada especialista em Direito de Família e Sucessões, além de dar aulas. Não atuava, entretanto, como advogada quando teve os dois: ainda estava no início da faculdade quando teve Davi e terminando a faculdade quando veio Maria Clara. Seus dois filhos tiveram, então, bastante influência na decisão de ter o seu próprio escritório, principalmente quando colocou na conta o que seria necessário para mantê-los. Depois de estabelecer metas, como mãe, mulher advogada , mas também empreendedora, começou a trabalhar, assim, com a advocacia home office, e a gerenciar melhor seu tempo.

Para Emili Loch, contudo, a situação foi diferente. Mãe do Joaquim (9 meses), advogada na área trabalhista e pós-graduanda em Direito Digital e Compliance, ainda está se redescobrindo como mãe e advogada. Quando Joaquim chegou de forma inesperada, a advogada precisou remodelar a sua rotina. E concorda que um planejamento de otimização de tempo acaba sendo algo imprescindível. Assim, pode encontrar, aos poucos, formas de conviver com a criança e manter a atividade profissional.



Carolina Fraga, por fim, advogada na área de família e pós-graduada em Direito Público, ainda espera o nascimento de Théo, de 27 semanas, mas já se prepara para a maternidade na advocacia. E percebe algumas mudanças em sua vida. É preciso, afinal, aceitar que nem sempre se terá controle sobre o próprio corpo ou sobre a situação. Além disso, encara a responsabilidade:

É uma experiência nova […]. Você ter uma responsabilidade em criar um filho é muito grande, você formar um indivíduo e, principalmente, como criar um homem em uma sociedade ainda machista […] para que ele não repita coisas que não são legais.

Planejamento da rotina

Gestão de tempo, como traz Alinny Burich, é um importante elemento para a mulher advogada que deseja conciliar a profissão com a maternidade. Dessa forma, é possível otimizar a sua produção, conforme o tempo disponível. Por exemplo, a advogada diz que, se uma pessoa trabalha, em geral, 8h, ela pensava ter que trabalhar o equivalente, mesmo em tempo reduzido. E isto era possível se ela soubesse separar suas atividades e focar em cada uma delas no momento adequado.

Conforme as crianças cresciam, Alliny viu a necessidade de se readequar. No entanto, viu que se tornou mais fácil, na medida em que a rotina se tornou mais previsível. Junto a seu marido, portanto, organizava a agenda, e tentava segui-la, justamente para não cair em um desequilíbrio.

Emili também precisou adaptar seu tempo e sua rotina. Fez, então, um planejamento, mas nem sempre é possível segui-lo à risca. Afinal, tanto ela quanto seu filho são, antes de tudo, pessoas que nem sempre se comportam de igual forma. É preciso, assim, separar um tempo do dia e da semana para conciliar todas as funções, definir uma agenda e as prioridade. Mas é preciso aceitar também que agenda deverá ser flexível, sobretudo no começo. Conforme Emili:

Eu já tinha alçado o voo de ser advogada autônoma. […] eu estava com o meu escritório, eu tinha uma parceria. […] É aquela coisa, a gente tem uma data prevista de parto. Então a gente tenta organizar ao máximo […] mas é lógico que o processo, às vezes é um caixinha de surpresa. E acontecem sempre […] aquelas situações em que você precisa realmente sair, você precisa atender. Inclusive […] eu tive que cumprir prazo dentro do hospital, porque eu tinha que cumprir. É a responsabilidade, então a gente não tem como abrir mão disso.

O momento de delegar tarefas

Emili fala que, apesar de sua parceria, percebeu que seria, talvez, melhor seguir sozinha. Muitos são os elementos a interferirem na vida da mulher advogada e mãe. E nem sempre todos compreenderão, o que é normal segundo a advogada. No entanto, a ajuda é muitas vezes necessária.

Carolina Fraga, por exemplo, embora ainda esteja à espera do Théo, já pensa em como fará quando ele chegar. E um de seus maiores desafios é justamente a delegação de tarefas. Afinal, ela sabe que talvez não consiga realizar alguns atos comuns à advocacia, como o comparecimento a audiências. E precisa, dessa forma, encontrar substitutos para seus processos. Mas como escolher um profissional que ofereça segurança não apenas a ela, mas também aos clientes?

Home office e maternidade na advocacia

Alliny começou a trabalhar home office para poder conciliar a maternidade antes de alugar um local para o seu escritório. E esta tem sido uma escolha de muitas mulheres que sejam se manter na profissão, mas sem abdicar da vivência com os filhos, sobretudo nos primeiros anos. No entanto, a maior dificuldade, sobretudo desse meio, é conseguir manter o foco. Depois de separar o tempo para cada atividade, é preciso se dedicar a elas com afinco, para que o tempo dedicado seja produtivo.

Nas palavras de Emili: ” No home office, você precisa ter aquela barreira de ‘agora estou trabalhando, agora estou cuidando do meu filho, agora estou cuidando da casa, agora estou vivendo”. Durante a gestação, Emili optou também por trabalhar home office em alguns momentos. Viu que as dificuldades de deslocamento, entre outras, não compensavam o tempo que ela poderia estar trabalhando de casa. E como ressalta Alliny, a tecnologia está aí para isso.

Quando Emili pensa, por exemplo, no trabalho realizado conforme a CLT, imagina a dificuldade de ter que retornar logo após a licença maternidade. E encara os benefícios da advocacia home office. E conforme Carolina, é uma forma de flexibilizar a vida profissional da mulher advogada e mãe, principalmente quando a criança é pequena e a inserção de uma rotina na realidade é mais complicada. Desse modo, pode-se trabalhar conforme as suas possibilidades naquele espaço e período, atentando-se, contudo, para que o benéfico não seja prejudicial. Por essa razão, a necessidade manter uma agenda, como reitera Alliny.

Como lidar com os clientes

Além da necessidade de se organizar no tempo, de modo a conciliar profissão e maternidade, há outro elemento que precisa ser considerado no planejamento da mulher advogada e mãe: os clientes. Como se sabe a relação com os clientes é um dos principais fatores a serem considerados na advocacia. É preciso, desse modo, investir não apenas na conquista, mas também estabelecer uma relação de confiança com os clientes.

Apesar da necessidade de Carolina Fraga de se desprender de um espaço físico próprio para o exercício da atividade profissional e de adaptação à advocacia home office, o mais difícil é o ato de delegar tarefas e transmitir confiança a seus clientes. Quando questionada sobre o planejamento nos períodos que antecedem o nascimento do Théo e das dificuldades, ela responde:

Eu sou autônoma e eu tenho uma data prevista de parto. Isto quer dizer pode vir um pouquinho antes, um pouquinho depois. E eu preciso estar preparada para isso. Então, as minha audiências […] ou eu já estou substabelecendo para outras pessoas ou estou tentando adiar um pouquinho. […] Mas principalmente a relação com os clientes. […] Quando você está atuando com o cliente, tem uma relação de confiança. E hoje, nessa mudança, eu acho que o que está sendo mais difícil é […] apresentar para os meus clientes que a pessoa […] é uma pessoa em quem eles podem confiar e não apenas em um sentido técnico, mas num vínculo quase emocional, num suporte que a gente tem.

Afinal, como coloca Emili, há uma cobrança dos clientes quanto a uma atuação semelhante do (a) profissional que substitua a mulher advogada e mãe.

Rede de apoio na maternidade

Segundo um ditado popular africano “é preciso uma aldeia inteira para criar uma criança”. Isto porque tanto as mães, quanto os pais e a própria criança não estão isolados. Fazem parte, contudo, de uma complexa rede de relações. E a sociedade também possui responsabilidade sobre os indivíduos que ela cria – e não apenas a mãe. No entanto, os deveres ainda recaem bastante sobre elas, unidos a uma ideia de culpa. É, assim, a perpetuidade de uma busca pela perfeição que ronda o imaginário feminino e acaba por instituir regras informais que afetam a maternidade.

Afora a crítica à idealização da maternidade, fato é que um rede de apoio exerce papel fundamental na vida de qualquer mãe inclusive da mulher advogada. Em primeiro lugar, é papel dos pais também participar dos cuidados com a criança, baseando-se em princípios constitucionais. Mas para além do cuidado direto, as pessoas em torno da mulher advogada e mãe podem ajudá-la nesse período de tantas mudanças, seja no auxílio de tarefas, seja no compartilhamento de informações ou mesmo no ato de escutar o que elas têm a dizer.

Emili, por exemplo, após a vinda de Joaquim, criou um perfil no instagram (@vivendocomjojo) para compartilhar as suas experiências. E assim descobriu uma rede de mulheres que se apoiam enquanto mães, mostrando que, apesar das particularidades, nenhuma delas está sozinha.

O que muda na vida da mulher advogada e mãe

A maternidade na vida de uma mulher advogada, mas também na vida de qualquer mãe, implica em uma série de mudanças, adaptações, readequações e descobertas. Como Emili Loch coloca é preciso priorizar a maternidade no momento em que você se descobre mãe. Contudo, isto não significa perder a sua individualidade, deixar de lado a profissão ou ignorar quem se é enquanto mulher.



Apesar da necessidade de separar tempo para cada exercício dentro da rotina, não há como separar integralmente a maternidade da mulher advogada e mãe. Isto não significa dizer que a profissional deva sempre ser vista como mãe. Afinal, existe uma mulher, indivíduo e advogada, que merece ser considerada e respeitada em sua individualidade. Contudo, a maternidade também a modifica enquanto profissional. Carolina Fraga, que trabalha com Direito de Família, já percebe algumas mudanças, sobretudo quanto à empatia. E Emili fala que passou a pensar mais e pensar por outras óticas.

Contudo, como Alliny adverte, é preciso entender que há uma responsabilidade jurídica, mas saber separar o que é dos clientes e o que é seu. E, assim, não se deixar afetar tanto e a níveis prejudiciais pelo que acontece dentro dos escritório e dos tribunais. O Direito lida com seres humanos e relações sociais, independentemente da área jurídica. O advogado, no entanto, não é e nem deve atuar como um psicólogo. Por mais que um processo desperte nos clientes a dor e a abertura, isto não deve afetar, emocionalmente, o advogado do mesmo modo. Ressalta, inclusive, a Cartilha de Saúde Mental da Advocacia, com conteúdo que deve ser levado em consideração até mesmo na advocacia home office.

Os impactos da maternidade na experiência profissional

Ainda quanto aos impactos da maternidade na advocacia, Carolina revela que uma de sua maiores preocupações é conciliar a ascensão profissional com a maternidade. Tendo se encontrado no Direito, como mulher advogada, Carolina não quer abdicar de sua carreira, de suas ambições profissionais. Sobre isso, Emili diz que está se reencontrando. Existe aquele desejo de voltar ao trabalho, mas a maternidade também a puxa. E ela está, assim, se redescobrindo como mulher advogada, mas como mãe também.

As três concordam que, em determinados momentos, não há nada mais prazeroso que dedicar um tempo à profissão. E também ser reconhecida por isso. Escrever artigos, publicar livros, participar de audiências. Tudo isso continua fazendo parte de suas vidas como mulheres e advogadas. No entanto, também faz a maternidade, que também lhes dá prazer. É uma questão de redescoberta e compreensão do seu momento. Nas palavras de Emili, “você precisa se readaptar e voltar a caminhar”.

A mulher advogada e as políticas quanto à maternidade

O ano de 2016 foi considerado o ano da mulher advogada no Brasil. E desde então, muitas políticas da OAB em relação às mulheres foram implementadas. No entanto, como Emili aborda, este não foi um ato isolado, mas fruto de um processo. E este processo é contínuo. Portanto, ainda não está finalizado. Mesmo antes de 2016, todavia, uma revolução já perceptível. E todos os passos dados nesse caminho são importantes em busca de uma evolução quanto aos direitos das mulheres.

O Provimento 168 de 2016 da OAB trouxe algumas previsões sobre o tema, apesar de nem tudo poder ser aplicado imediatamente, em face dos contextos de cada seccional. Uma das previsões, por exemplo, foi em relação à permanência da Comissão da Mulher Advogada. Ainda, estabeleceu-se que deveriam ser abertas outras comissões de acordo com a realidade das subseções.

Afinal, a realidade de cada grupo de mulheres e mães é diferente. As dificuldades podem ser outras. E as possibilidades de implementação também. Não se pode generalizar e querer aplicar uniformemente as políticas, institucionais ou não, sem considerar as diferentes realidades. E apesar disso, ainda há mais a ser conquistado em direitos e espaço.

Romantização da maternidade

A maternidade, enfim, continua a ser romantizada. Ainda se tem a ideia de que a mulher precisa carregar sozinha o peso da maternidade e da culpa por não ser perfeita. E esta é uma desconstrução necessária na sociedade. Como Alliny, Carolina e Emili debatem, a possibilidade de trabalhar foi uma conquista de alguns contextos, ainda que não seja algo universal. E nesses contextos, então, é preciso se libertar da culpa.

Alinny traz, então, uma experiência própria. Depois de exaurir seu corpo com o trabalho excessivo, optou por estabelecer um limite. Ela fala:

Eu preciso ter autofoco ali no trabalho, mas eu também preciso descansar. […] A gente tem que ser mãe, tem que ser advogada, mas a gente tem que cuidar da gente. […] A gente tem que ser cuidada, senão a gente inventa de ser a mulher maravilha.

Ainda, a advogada fala:

[…]Teve uma época que achava maravilhoso quando alguém me falava: ela dá conta. […] E uma hora a conta chega. […] E aprendi, depois de pagar um preço alto pela saúde, de que não tem essa, romantização não existe, que a gente vai se esgotar, a gente vai ficar cansada, e que está tudo bem não dar conta.

Como ela aborda, é normal não conseguir dar conta de maternidade, trabalho, casa, tudo sempre e ao mesmo tempo. Os filhos entenderão que você está cansada num dia, mas que eles terão um tempo com você e que você os ama igualmente. E como pontua Carolina, é necessário uma autopreservação.

Emili comenta que a culpa já nasce com as mulheres, no sentido de que é importa socialmente. E toma proporções maiores quando se trata da maternidade, inclusive da mulher advogada.

Perspectivas para a maternidade da mulher advogada

Diante de um mercado jurídico em que a mulher advogada já representa quase 50%, Carolina Fraga destaca que é necessário uma estrutura que considere o corpo feminino e maternidade como uma possibilidade da mulher advogada. O aumento da representatividade deve ser seguido, portanto, de uma estrutura que comporte essa realidade.

Nós por exemplo temos a capacidade de gestar, mas isto é algo totalmente fisiológico, falando em aspecto geral. Homens não podem. Então, a gente precisa ter esse respaldo […] ter uma estrutura que nos possibilite exercer a nossa advocacia, com as nossas peculiaridades e dentro da nossa total capacidade.

Alliny complementa:

Essa equidade, essa igualdade, não quer dizer a gente vai se comportar feito homem. Não é isso. Eu quero ter direitos iguais, espaços iguais, dentro das minhas peculiaridades […].

E essa demanda não lhes retira a capacidade de atuar em níveis de igualdade aos homens dentro da área jurídica. A capacidade intelectual e profissional da mulher advogada é a mesma de um homem.

Por fim, é relevante destacar que as condições são diferentes mesmo entre as mulheres. Como Alinny coloca, ser mulher advogada e mãe não é impossível, mas “existem situações mito mais difíceis, de mulheres advogadas numa situação muito mais delicada, […] situações muito mais complexas que, aí, sim, precisam de um aparato muito maior, até […] político-social”.

E uma importante lição é aprende a escutar mais a si e menos as outros. A sociedade tentará dizer qual a forma “correta” de exercer a maternidade. E esta é mais forma de controlar o corpo feminino. No entanto, cabe a cada mulher entender as suas particularidades, seus contextos, e definir o que é melhor e o que leva ao seu equilíbrio.

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