O perfil do sociopata na sessão de mediação: como identificá-lo

Como lidar com um perfil de sociopata na sessão de mediação

Frequentemente nos vemos envolvidos por pessoas cujo carisma nos conduz a fazer o que elas desejam, haja vista a forma cativante de se apresentarem a nós, de desenvolverem assuntos que nos interessam e de serem participativos nas nossas vidas, nosso cotidiano. E isto não poderia ser diferente no Direito. Desse modo, não é impossível encontrar pessoas assim também na sessão de mediação.

Pessoas com esse perfil geralmente apresentam um nível de inteligência que impressiona, uma eloquência que deslumbra, e são capazes, então, de se destacar em qualquer ambiente que se encontre, haja vista sua capacidade persuasiva para com todos.

Isso pode ser um problema grave, pois há uma possibilidade de estarmos lidando com um sociopata.

mediação

O que é um sociopata

Os sociopatas são caracterizados pelo desprezo pelas obrigações sociais e por uma falta de consideração com os sentimentos dos outros, com total ausência de culpa ou remorso em relação aos outros. Não importa se homem ou mulher, na maioria das vezes essas pessoas se apresentam como líderes dos grupos que frequentam, como condutores das mais variadas conversações e tomada de decisões.

Robert Hare, um dos maiores pesquisadores e especialistas no mundo da sociopatia criminosa, caracteriza, portanto, os sociopatas como:

Predadores intra-espécies que usam charme, manipulação, intimidação e violência para controlar os outros e para satisfazer suas próprias necessidades. Em sua falta de consciência e de sentimento pelos outros, eles tomam friamente aquilo que querem, violando as normas sociais sem o menor senso de culpa ou arrependimento.



Um número alarmante, contudo, revela que entre 1 e 4% da população possui este perfil em maior ou menor escala.

Como identificar um sociopata na mediação

Ao conduzir uma sessão de mediação, o mediador capacitado é capaz de identificar ainda que de forma leve o indivíduo com esse perfil, e, portanto, deve agir de maneira bastante criteriosa, sob pena de prejudicar a parcialidade e a outra parte.

Deve-se ter em mente que, numa sessão de mediação e conciliação, este perfil poderá tomar o seu tempo e dos demais. Pode, assim, exigir criteriosa, longa, envolvente e emocionante explanação sobre os seus motivos acerca do conflito. Desse modo, o mediador deve se cuidar para não se tornar parcial, tomar suas “dores” devendo manter o foco numa discussão equilibrada entre as partes. Com isto, com as técnicas devidas, poderá dissuadir as más pretensões do possível sociopata e desmontar o seu palco.

Cuidados do mediador em face de um sociopata

Geralmente lidar com pessoas com esse perfil requer sutileza, gentileza, amabilidade pois estes sempre buscam meios de apresentar suas ideias a todos, levando a crer que seu ponto de vista é o melhor a ser aceito. Convencem-nos, então, de que suas intenções devem ser aplaudidas, ou se fazem de vítimas das circunstâncias, o que pode causar sérios prejuízos aos envolvidos, na maioria da vezes financeiros ou de dependência financeira. Por exemplo: manutenção da moradia, alimentação, transporte, enfim, tudo que possa lhe representar conforto e que isso possa ser “ofertado” pela outra parte.

É possível, assim, que convivamos com uma pessoa desse distúrbio. Muita das vezes isso pode durar uma vida inteira sem que percebamos, pois, de maneira gentil, somos conduzidos a atender todas as necessidades dessa pessoa, acreditando que precisamos disso para nosso próprio bem estar. Na mediação, todavia, seu lado negativo é a superficialidade, são exclusivistas e impulsivos, sendo que o seu lado positivo é serem diretivos, buscam a objetividade, agem rápido e com energia. Autoconfiança e eficiência são suas marcas. Sempre tem muita pressa em resolver a situação. Geralmente exageram em suas afirmações, entram em contradições e não cumprir o que prometem.

É bastante comum iniciarmos uma audiência na qual o sujeito (a) é falante, sorridente, sempre alegando disposição em colaborar e a fazer tudo quanto possível para resolver da melhor forma a situação. Quando isso ocorre, entretanto, o mediador experiente já fica atento à possibilidade de que essa pessoa possa não estar correspondendo em todo com a verdade. Basta que o diálogo comece para que a vitimização fique evidente, fazendo com que a outra parte se sinta constrangida em não mais estar “ajudando” esse (a) pobre coitado (a).

Clientes sociopatas e prática da advocacia

Na maioria das vezes esse perfil é encontrado nas sessões que envolvem famílias, geralmente ações de alimentos ou qualquer tipo de pagamento de pensão. Já tivemos inúmeras oportunidade de encontrar esses perfis em audiência, homens ou mulheres e tal situação requer bastante cautela na condução da mediação.

Para elucidar melhor, apresento uma experiência própria com um cliente:

Recentemente atendi um rapaz com idade aparente de 30 anos, me procurou no escritório com um interesse incomum em regularizar o pagamento de pensão alimentícia a seus dois filhos.

Iniciou o discurso dizendo amar demais os filhos, querer dar o melhor a eles, ser um pai vem visto pela sociedade, em especial pela nova namorada a qual lhe estava dando um grande apoio, e, sentindo necessidade de demonstrar ao filho maior, atualmente com 10 anos de idade, que ele era realmente um excelente pai e que “as coisas que sua mãe fala dele” são inverdades e ele (o pai) quer provar isso pra todos.

Contradição no discurso

Todavia, bastou saber que a guarda compartilhada envolve responsabilidade civil para com os filhos, que este nobre rapaz já deixou escapar que não quer saber de responsabilidade com esses “meninos”, que “as mães que se virem”, haja vista que ele já paga a pensão e elas (as mães) não fazem nada da vida. Bom, onde está, então, o amor, a cumplicidade e o exemplo de bom pai?

Seguiu-se a entrevista e, ao falar sobre valores de pensão, ofertou o pai a quantia ínfima de R$150,00 (cento e cinquenta reais) mensais para cada filho, sem qualquer hipótese de ajudar nas despesas extraordinárias, pois ele, o pai, entende que essa quantia é mais do que suficiente para custear a comida de cada filho, e não quer “sustentar a mãe” deles.

Nesse ponto, necessário se faz esclarecer que uma das crianças tem apenas 09 (nove) meses de idade e que essa quantia, portanto, não é capaz de suportar nem mesmo o pagamento das fraldas da criança, tampouco medicamentos, consultas frequentes que crianças nesta idade necessitam. Já o outro filho, com 10 anos, necessita de roupas, materiais escolares, já tem necessidades de lazer e atividades esportivas, dessa forma, essa quantia não atende a nenhuma dessas necessidades.

Distorção dos fatos

Seguindo o atendimento, o rapaz deixou “escapar” que ambas as mães (dois filhos, um de cada mãe), não mais quiseram relacionar com ele, sob alegação de que ele não trabalha nem ajuda na manutenção do lar, e o deixaram, assim, ao abandono, sem casa, sem moradia, levando seus filhos para longe dele sem o consultar, chegando até mesmo a chorar no escritório, demonstrando crer veementemente nos seus argumentos.

Contou também que se casou novamente e que resolveu regularizar a situação de seus filhos, pois a nova esposa lhe garantiu que vai ajudar a pagar o que for preciso.

Passados poucos dias, veio ao escritório a nova esposa do rapaz querendo confirmar o valor que será pago a título de alimentos, pois o esposo lhe disse que deveria pagar a quantia de R$600,00 (seiscentos reais) para cada criança e que o pagamento deveria ser feito pelo  pai à cada mãe, em mãos, ou seja, a nova esposa deveria lhe dar a quantia de R$1.200,00 (um mil e duzentos reais) em espécie mensalmente e este repassar as mães a quantia estabelecida no acordo, que sua vontade representa apenas o quantitativo de R$150,00 para cada criança.

Elementos premeditados

Outro ponto que merece destaque nesse atendimento é que, ao aferir a documentação do pai, percebi que o mesmo é empresário, dono de farmácia de renome na cidade e disse que tinha “pedido ao contador” que fizesse o registro em sua CTPS como vendedor e que o fizesse os contracheques no valor de um salário mínimo para comprovar que não tem condições de arcar com despesas que possam ser maiores que sua oferta. Foi apresentado também um contrato de aluguel fictício para demonstrar as altas despesas que o pai tinha, ou seja, tudo cuidadosamente premeditado.

Responsabilidade na condução da mediação

Como se observa, são situações críticas e embaraçosas em que se vê o mediador, haja vista ter que garantir a “ambas” as partes a imparcialidade, se abstendo do nosso juízo de valor, e lembrar que a mediação tem sua função social, não podendo o mediador agir em detrimento de qualquer parte, sobretudo, permitir que crianças sejam prejudicadas.

Destarte, nesses momentos é necessário ter firmeza, lucidez e responsabilidade na condução da mediação, e com muita técnica, apresentar as diversas ferramentas da mediação, tais como, a técnica do teste de realidade, inversão de papéis, incluir as chamadas perguntas abertas, extensivamente ensinadas nos cursos de mediação e muito utilizadas por negociadores experientes. As perguntas abertas trazem respostas mais detalhadas e a pessoa precisa fazer reflexões antes de responder. Assim é possível conhecer com mais profundidade as necessidades e interesses de forma mais abrangente, na tentativa de fazer com que o alimentante se responsabilize e compadeça com suas crianças e lhes ofereça o mínimo necessário para o sustento.

Importante mencionar que o mediador deve se abster que tentar agir como “psicólogo” da parte. Não pode nem mesmo os profissionais dessa área se mediadores agir nesse sentido numa sessão de mediação.

Cumpre esclarecer que esse atendimento foi feito no escritório, de forma extrajudicial, por mediador devidamente qualificado, como mediação prévia com o pai, antes de formular o pedido judicial de regulamentação de oferta de alimentos. Na sequência foram realizados os atendimentos das mães e cada uma teve oportunidade de apresentar seu ponto de vista e suas necessidades. Uma mediação eficiente deve ser realizada com ambos os envolvidos (sessão individual) e depois com as partes em conjunto (sessão conjunta), para alinharem seus pensamentos e tomarem as decisões que mais lhe atendam.

Procedimentos essenciais

Entendemos ser importante esse procedimento, pois ao se dirigirem ao juízo as partes já estão mais esclarecidas e empoderadas a tomarem uma decisão informada, que mais atendam seus anseios, que nesse ínterim possam buscar auxílio de um advogado para garantir seus direitos legais, tendo em vista que o mediador deve ser abster totalmente de dar orientações jurídicas aos envolvidos.

Como procedimento extrajudicial, em alguns casos, o termo de acordo extrajudicial poderá ser lavrado e assinado e terá validade legal. Todavia, em se tratando de situação que envolva direito de menores, o acordo deverá ser levado ao judiciário para homologação, ouvindo em primeiro o representante do Ministério Público.

Nos procedimentos realizados no Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania – Cejuscc – em havendo necessidade, o mediador poderá remarcar as sessões de audiência quantas vezes forem necessárias para o desenrolar da situação, haja vista ser auxiliar da justiça, e, desse modo, poderá contribuir para uma solução eficaz do conflito.

Todos os mediadores já tiveram ou terão que enfrentar negociações difíceis. Como no contexto citado ou noutra situação similar, contudo, devem saber quais são os seus próprios limites.  É importante que o mediador busque, assim, se auto conhecer para assim conseguir entender melhor sua personalidade e a dos demais que encontrar no desempenho de sua função. Autoconhecimento é chave segura para melhorar as habilidades de comunicação.

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