Ouvir e escutar – Você sabe a diferença e seus benefícios na advocacia?

Tempo de leitura: 5 minutos

Antes de conhecermos quaisquer métodos de resolução de conflitos na advocacia, precisamos distinguir algo simples: a diferença entre ouvir e escutar.

No artigo anterior, foi abordado os métodos consensuais de resolução de conflitos como um caminho de oportunidade para a advocacia. Quais são esses métodos? Como eles funcionam na prática da advocacia? Como o judiciário tem visto esses métodos? Estas foram algumas das perguntas que recebi.

E, ao refletir sobre o tema, constatei claramente que, antes de conhecermos quaisquer métodos para serem utilizados na resolução de conflitos, precisamos distinguir algo muito singelo, algo que não aprendemos (também) nos bancos acadêmicos: a diferença entre ouvir e escutar. Afinal, como podemos dizer ao nosso cliente se é possível ou não a aplicação de algum método resolutivo se não compreendermos o cerne da questão?

Pois bem. Primeiro, há que se distinguir ouvir de escutar. O primeiro verbo remete ao sentido da audição, é aquilo que o ouvido capta, enquanto o segundo corresponde à intencionalidade daquele que escuta, seu comportamento diante daquele que fala, a atenção oferecida. Ou seja, escutar é entender o que está sendo captado pela audição, mas, além disso, é compreender e processar a informação internamente.

Rubem Alves já tratou do assunto…

Rubem Alves, em seu famoso poema “Escutatória”, demonstra-nos com sua clareza de ideias o quanto estamos despreparados para uma escuta ativa:

“Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular. Escutar é complicado e sutil…

Parafraseio o Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma”. Daí a dificuldade: a gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer…

Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos…”

Silencio. Silêncio na alma. Sábio Rubem Alves.

E o que exatamente vêm a ser essa escuta e o ato de escutar ativamente?

Escutar é uma habilidade complexa, que possui múltiplos aspectos e que não está nas ementas das universidades. É um esvaziar-se de si, para que as palavras do outro possam entrar. É silencio. É se fazer pequeno diante daquele que se coloca a falar. Escutar atentamente. Respeitosamente.

Escutar é o único ato de amor do qual não se pode duvidar.

E o que ouvir ou escutar tem a ver com a advocacia?

Sabemos que a escuta é primordial para a aplicação do Direito, porque é por meio da fala que a comunicação é feita. E toda comunicação, toda questão que o cliente nos traz, possui uma causa e uma consequência.

Assim, se o(a) advogado(a) se coloca em uma posição “superior” a seu cliente, simplesmente ouvindo, mas não escutando o que de fato acontece, corre o risco de afirmar aquilo que ouviu, mas não o que escutou. É possível que ele ou ela transcreva na sua peça processual e/ou verbalize em uma reunião ou audiência o que deduziu como sendo a verdade absoluta.

Ouvir e escutar na advocacia

É preciso apurar o ouvido para uma escuta ativa

Não é fácil escutar, deixar o eu de lado e se colocar a escutar. Não foi desta forma que aprendemos nas universidades. Ao contrário, aprendemos a ter resposta para tudo.

Somos treinados coletivamente e inconscientemente para ouvir, já nos preparando para falar algo em seguida. Muitas vezes ouvimos somente para termos certeza daquilo que já estamos deduzindo sobre o tema abordado.

Perceba que quando somente se ouve, mas não se escuta, o foco não está sendo a pessoa que se coloca a falar no momento, mas aquele que está a ouvir.

Todos nós temos conhecimento e capacidade de representar alguém, mas podemos fazê-lo de modo mais efetivo, simplesmente escutando este alguém.

A juíza Quitéria Tamanini Vieira Péres, em sua obra “Vamos conciliar?”, relata que, por vezes, a lide processual apresentada não repercute na solução do conflito. Isso acontece porque, em algumas situações, aquilo que foi transcrito na inicial não coaduna com a realidade dos fatos, com o conflito vivenciado entre as partes, apresentando-se menor, maior ou completamente diferente.

A trilha dos métodos não judiciais de resolução de conflitos precisa de visão pacificadora

Essa visão nos leva a perceber a multidisciplinaridade do Direito, a necessidade de, como operadores do Direito, transpormos a ideia de que só o conhecimento jurídico basta. É preciso uma nova postura diante do conflito, e esta começa pela forma como nos colocamos perante o nosso cliente: escutando-o.

O filósofo Aquilino Polaino, na obra “Aprender a escutar. A necessidade vital de comunicarmos”, questiona:

“O que é necessário para levar alguém, com um verdadeiro sucesso, a um ponto preciso? Ter antes de tudo o cuidado de cativar e começar onde ele se encontra”.

E para “começar onde tudo se encontra”, precisamos guardar por um momento tudo o que sabemos e o que somos, colocando-nos simplesmente a escutar, com compreensão e ativamente, aquilo que a pessoa tem a nos dizer.

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